Cássia é uma cidadezinha bem miúda, isolada de tudo, na Umbria, província de Perugia, a 140 km de Roma, e no alto de uma colina; muito famosa devido à Santa Rita, que lá viveu e morreu. É destino de um milhão de fiéis que, todos os anos, peregrinam em busca de sinais de sua vida, e seus milagres.

Gostaria de já deixar claro que esta não é uma postagem religiosa; assim como eu visitei sinagogas na República Tcheca e como as mesquitas são visitadas em países islâmicos, o turismo religioso é uma vertente forte do turismo e é essa a ideia.

Santificada em 1900, Santa Rita se chamava Margherita Lotti e, curiosamente, foi esposa, mãe, e viúva, antes de ser freira agostiniana, o que me chamou a atenção, e me fez pesquisar sobre a vida dela. Vi um filme, e me apaixonei pela sua história. Para católicos ou apreciadores de turismo religioso, Cássia é um lugar especial, e estar diante de Santa Rita, é uma experiência inesquecível, isso porque, embora morta há mais de 550 anos, o corpo não se decompôs, e Santa Rita jaz em uma urna de prata e cristal na basílica de seu santuário.

A basílica foi concluída em 1943 e, externamente, é toda coberta em mármore travertino Tivoli. Sobre o acesso principal se lê a saudação de honra à Santa Rita. A construção apresenta uma planta de cruz grega com absides laterais e quatro grandes cúpulas centrais denominando o presbitério. O artista Eros Pellini esculpiu em baixo-relevo, no portal principal, episódios significativos da vida da santa.

      

Confesso que ao entrar, a basílica me chamou a atenção pela explosão de cores. É uma igreja cheia de luz e de cores, mas com uma aura de misticismo. Todo o conjunto dá uma impressão de vivacidade…é bem incomum.

   

O tabernáculo, de forma oval com espigas de milho, ramos de videira e uma rosa no centro, simboliza a vida e a paz que é a Eucaristia para os católicos.

Um outro ponto de visita em Cássia é a capela do milagre eucarístico, ou basílica inferior, que conserva uma óstia consagrada que se transformou em sangue, em 1330, enquanto um padre a transportava a um doente. Localizada nas fundações da basílica, desde 1947 o local existia, porém, foi completamente transformada para se chegar ao que temos hoje. O todo é muito harmonioso; a simplicidade favorece o recolhimento e a oração. No final do presbitério é a imagem do Sagrado Coração de Jesus, uma bela tela de Luigi Filocamo. Sob o altar você pode ver o painel decorativo em mármore com a Última Ceia de E. Pellini, que também esculpiu as estátuas que adornam as paredes ao redor. Suas preciosas janelas com os santos agostinianos da Umbria, alternadas com paisagens locais, dão ao lugar um toque de cor e luz. No transepto direito, se encontra a capela do Milagre Eucarístico e da Beata Simone Fidati. E no transepto esquerdo, você pode admirar a tela retratando Santa Maria Maddalena em lágrimas.

                  

E temos ainda, o mosteiro onde Santa Rita viveu. Se pode ver o claustro com o poço onde ela pegava água, o oratório do crucifixo, onde se acredita que Santa Rita recebeu os espinhos na testa, o roseiral da santa ( criado em memória do milagre da rosa e dos figos ), e sua aliança de casamento.

  

  

Outros pontos turísticos são: igreja de São Francisco ( chiesa di San Francesco ), do período medieval, e a igreja de Santa Maria da Visitação ( chiesa di Santa Maria della Visitazione ), antiga igreja romana com corredores e aparência interna do século XVI, e onde Santa Rita foi batizada.

   

   

Embora Santa Rita seja conhecida como Santa Rita de Cássia, ela nasceu em Roccaporena, a 6 km de Cássia, e lá é possível visitar a casa onde Rita morava, seu jardim ( onde foram colhidos a rosa e os figos que ela pediu antes de morrer, em pleno inverno ), e a gruta onde ela rezava ( Scoglio della Preghiera ). Falarei sobre Roccaporena em um post específico sobre ela…

Scoglio della preghiera.

Ainda que você não seja religioso ou devoto de Santa Rita, Cássia e Roccaporena encantam pela natureza que esbanjam.

A basílica fica aberta das 6:45 às 18:00 entre os meses de novembro a março, e das 6:30 às 20:00 entre os meses de abril e outubro; e o monastério funciona de 10:00 às 16:00 e de 09:00 às 17:00, respectivamente.

Lojinhas de lembranças são encontradas por todos os lados.

Como pontos de interesse histórico na cidade, cito o museu cívico  no Palazzo Santi e na igreja de Santo Antônio Abade ( chiesa di Sant’Antonio Abate ) e o templo romano, na Igreja da Vila de São Silvestre.

Como chegar:

De ônibus, se chega na parte baixa da cidade, na Piazzale San Francesco, e para se chegar ao santuário e ao mosteiro, se pode fazer o percurso caminhando, ou através de escadas rolantes.

De Roma, se pode pegar o ônibus E433, na rodoviária ( autostazione ) Tiburtina ( esta opção é infinitamente mais econômica do que ir de trem, embora o horário seja um pouco desconfortável por ser muito cedo ). A viagem dura 3 horas e, se pretende fazer bate-volta, pegue o de 7:30, com retorno às 15:30 ( são só dois horários por dia ). A passagem custa cerca de €14.

Se optar por ir de trem, basta pegar um trem até a cidade de Spoleto e de lá pegar um ônibus ou táxi para Cássia ( em 2014 pagamos €100 pelo táxi…ele nos levou, nos esperou por uma hora, e nos trouxe de volta à estação. Sim, uma hora foi pouco, mas era o que dava para fazer naquele dia, pois já não tinham horários de ônibus disponíveis, e era o quanto o taxista podia nos esperar. Recomendo averiguar com antecedência os horários disponíveis de ida e volta, sejam os do trem e os do ônibus, pois não recomendo o uso de táxi ). A viagem de trem até Spoleto dura 1 hora e meia, e o bilhete, saindo de Roma, custa cerca de €9 ( até o momento, apenas a Trenitalia faz esse percurso ). De Spoleto até Cássia são 55 km e, de táxi, a viagem dura 1 hora, e de ônibus, 2 horas.

Onde se hospedar:

Para quem vai de carro e pretende conhecer Cascia e Roccaporena, recomendo pernoitar por lá, para não ser uma visita muito corrida ( sem carro é totalmente inviável conhecer as duas cidades em um dia ).

O hotel que recomendo é o Hotel delle Rose, que é um dos mais procurados por ser no centro de Cássia. O hotel  nasceu como uma casa de peregrinos pela vontade da Irmã Fasce que, quando ainda não havia outras acomodações ao redor do santuário, queria garantir aos peregrinos um lugar confortável para ficar. Localizado logo atrás do Santuário, na parte mais alta e mais panorâmica da cidade, o hotel tem vista para as montanhas arborizadas de Valnerina. O hotel dispoẽ de estacionamento, wifi, e café da manhã, por um ótimo preço. Mas como eu disse, ele é muito procurado, então, se programe com antecedência.

       

😉

Um pouco da história de Santa Rita

Nascida em 1371, o nome verdadeiro de Santa Rita era Margherita Lotti, filha única de Antonio Lotti e Amata Ferri, que desempenhavam o papel de pacificadores das famílias conflitantes, ou seja, eram pessoas estimadas e desfrutavam de um certo prestígio social, moral e econômico, embora não fossem ricos.

A única instrução com a qual Rita teve contato, foi a religiosa; mas apesar do contato com a igreja, ela optou por constituir família. O jovem que se apaixonou por ela, e a quem ela correspondeu o sentimento, era Paolo di Ferdinando di Mancino. Ele não era violento, como descrito por alguns, mas era um ghibellino ( uma facção política que vivia em conflito ) fervoroso. Rita, portanto, não o “acalmou”, apenas o ajudou a viver com uma conduta mais cristã; e esse amor deles, incondicional e recíproco, foi abençoado com dois filhos, provavelmente gêmeos, ou com pouca diferença de idade entre eles: Giangiacomo e Paolo Maria.

Com o nascimento dos filhos, foi necessária uma conduta mais responsável de Paolo, um homem de armas, mas também um homem de família. E foi neste momento que, provavelmente, a família mudou-se para o “Mulinaccio” ( moinho de propriedade de Paolo ), onde eles tinham uma casa maior e a possibilidade de gerenciar uma atividade de moagem de grãos de forma direta e responsável.

Após 18 anos de matrimônio, Paolo foi assassinado, perto de casa, por inimigos de sua família. Rita perdoou os assassinos e não revelou seus nomes, mesmo que esse gesto lhe tenha custado o ressentimento da família de seu marido. E um medo grande passou a lhe afligir: que seus meninos pudessem se tornar parte dessa espiral de ódio que foi desencadeada com a morte de seu marido. E assim, Rita pediu a Deus que seus filhos não fossem manchados com tais atrocidades e que os afastasse do desejo de vingança. E os dois jovens morreram logo em seguida, provavelmente de praga ou de alguma outra doença.

Deixada sozinha, entre 1406 e 1407, Rita aproxima-se cada vez mais do Cristo sofredor e, nesse momento, sobe ao Scoglio di Roccaporena e se coloca em oração. Aos 36 anos, Rita já havia superado mil dificuldades e, com a ajuda da oração a seus três patronos, Santo Agostinho, São Nicolau de Tolentino e São João Batista, finalmente, coroa seu desejo de ser recebida no Mosteiro de Santa Maria Maddalena.

Depois de ter passado pela dor da morte dos seus, dentro das muralhas do mosteiro, Rita oferece a dor aos sofrimentos de Cristo pela humanidade. Ela pede e consegue, como promessa de amor de Deus, se unir ainda mais ao seu sofrimento. O ano é 1432, uma noite, absorta na oração, pede ao Senhor que a compartilhe em seus sofrimentos, e não se sabe o que aconteceu naquele momento, se foi uma luz, um flash, ou qualquer outra coisa, mas uma ferida, um estigma, como de um espinho, surgiu no rosto de Rita, e lá permaneceu, adormecido na sua fronte e na sua alma, até o último de seus dias.

No inverno antes de sua morte, gravemente doente, Rita passou longos períodos em seu quarto. Provavelmente a saudade de sua Roccaporena, e a memória de Paulo e de seus filhos era sentida viva. Talvez ela, que sempre orou por suas almas, sentisse que o fim estava próximo, e angustiada por não saber se o Senhor havia aceitado seus sofrimentos e orações pelos pecados de seus entes queridos, pede um sinal de amor e o céu responde mais uma vez…

Um de seus parentes tinha vindo visitá-la, e ela lhe pede para ir a sua horta, em Roccaporena, e pegar uma rosa e dois figos. É um janeiro de neve e frio. O parente vai ao jardim e encontra, sem acreditar, a rosa e os dois figos solicitados, e os traz para Rita. Assim ela entende que suas orações foram atendidas, e tem a certeza de que seus entes queridos tinham sido recebidos por Deus.

Fraca e muito debilitada, Rita faleceu na noite entre 21 e 22 de maio do ano 1447, momento em que os sinos do mosteiro, movidos por mãos invisíveis, começaram a tocar.

Imediatamente após sua morte, Rita foi venerada como protetora da praga, provavelmente devido ao fato de que, em vida, a Irmã Rita Lotti se dedicou ao tratamento das vítimas da praga, sem nunca contrair essa doença. Daí deriva a atribuição de santa dos casos impossíveis.

Mas o primeiro milagre que lhe é atribuído, se remonta poucos dias após seu nascimento, o milagre das abelhas brancas: os pais, envolvidos na colheita, deixaram Rita em um berço debaixo de uma árvore, e dela se aproximaram abelhas brancas, que começaram a entrar e sair de sua boca, depositando mel. Enquanto isso, um trabalhador que havia se ferido gravemente e buscava tratamento, passa diante do berço e vê a cena de Rita rodeada por abelhas; ele então as tenta afastar com a mão ferida, que surpreendentemente é curada. Daí vem a assimilação de Santa Rita com as abelhas, além das rosas.

7 Replies to “Cássia”

  1. Tive o grande prazer e emoção de visitar o santuário de Santa Ria de Cassia. De uma emoção inesplicável, perante o seu corpo, só a fé nos leva à beleza de sentimentos que são vividos!

  2. Adorei ler sobre a cidade de Cassia e sobre a vida de Santa Rita. A cidade me pareceu bem tranquila e os monumentos muito bem conservados.

    1. Sim, a cidade é realmente bem pequena e muito tranquila. Digamos que é o Santuário que a movimenta. No mês de maio é mais cheia ( principalmente nos dias 21 e 22 ), por ser o mês de Santa Rita, mas nos outros meses a visita é bem tranquila.

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