Que língua fala a comida italiana no Brasil?

A imigração italiana para o Brasil teve seu auge entre 1880 e 1930, chegando a ser o país que mais recebeu italianos, por isso a grande influência na gastronomia.

E que a culinária italiana é muitíssimo presente no Brasil, não é nenhuma novidade, mas não se iluda pois nem toda receita que comemos em restaurantes italianos no Brasil é, realmente, italiana. Brasileiro tem sempre que deixar a sua marca, e foi assim ( e ainda é ) com muitos pratos italianos ( e japoneses, e mexicanos, e etc… ).

10 coisas que os brasileiros precisam aprender para deixar a comida italiana mais italiana…

1 – Os pratos não são afogados em queijo.

Eu sou muito zoada com isso, pois é uma característica forte nossa, e eu a tenho…amo queijo; e isso me rende muita zoação por parte do meu queridíssimo coinquilino que, para me zoar, diz que para fazer uma comida brasileira basta colocar queijo e presunto ( até parece, né? ).

Aqui raramente os pratos são cheios de queijo ( ou presunto ). Existe um código que regula as porções, seja do tamanho de uma refeição, do prato ou do molho…nada é deixado ao acaso e nunca se exagera.

Por exemplo, uma porção individual de massa seca pesa entre 60g e 80g; uma porção individual de nhoque pesa 130g. Isso é muito pouco para o nosso padrão, mas se você quer fazer como os italianos, siga a proporção.

E aquela enorme parmigiana de frango que você vê nas mesas com toalhas quadriculadas em restaurantes italianos? Se esse mesmo prato fosse servido na Itália, não seria individual.

2 – Assim como o queijo, os alimentos também não são afogados em molhos.

Segundo os italianos, não se sente o sabor do prato quando ele vem coberto de molho, e o prato se torna apenas um recipiente para servir o molho ( ou o queijo ). Não que isso seja necessariamente um fato negativo, mas os italianos não o fazem. Nenhum prato é carregado demais. Há uma tradição ligada à moderação que, sem dúvida, tem raízes culturais.

Um fato engraçado sobre isso, foi quando experimentei o tagliatelle e a lasagna al ragù ( bolognesa ), em Bologna, pois o meu comentário foi exatamente de que era bem menos molho do que o nosso, e que, com certeza, agradaria à minha mãe, que não gosta de muito molho de tomate. Hahahaha!!!

3 – A comida italiana está ligada a produtos sazonais, ou seja, da estação.

Todos os restaurantes que oferecem especialidades regionais, servem as proteínas encontradas na região. Se você passar por uma plantação de ameixas, esteja certo de ver receitas de ameixas no cardápio. A comida é sempre fresca, local, e muito simples…mesmo as opções feitas em casa.

4 – Espaguete com almôndegas não é um prato italiano.

De acordo com o controle da porção, na Itália você nunca verá um prato de espaguete com almôndegas. Os italianos não comem massa e carne juntos; eles servem almôndegas sim, mas separadamente. As almôndegas são tradicionalmente servidas em um prato à parte, temperadas com molho, e comidas como aperitivo ou como acompanhamento.

A massa é sempre “primo” prato ( primeiro ), e a proteína, ou seja, a carne, é sempre “secondo” ( segundo ), e eles vêm separados, um após o outro. É estranho para nós? Sim, muitão! E para eles é estranho comermos tudo junto…arroz, feijão, bife, ovo, etc. Hehehe!!

5 – O segredo está na simplicidade.

Enquanto no Brasil a intenção é ser over, ou seja, tudo muito…muito queijo, muito bacon, muito presunto, muito tudo ( vide o cachorro quente atual onde até ervilha e purê se coloca ); a comida italiana permanece fiel às suas raízes e à sua simplicidade ( pizza de hambuguer ou de strogonofe é uma heresia ). Aqui é tudo receita de mãe, de avṍ…

Confesso que é uma coisa difícil de se adaptar, mas hoje fico feliz por ter esse “termômetro” que me ajuda a equilibrar um pouco a minha alimentação.

6 – A cozinha italiana não é feita somente de massa.

Ainda que a massa seja o forte da cozinha italiana, há uma enorme variedade de pratos regionais, muitos dos quais não têm nada a ver com massas e eu me pergunto porque não os conhecemos.

Muitos desses pratos são de vegetais e são servidos em restaurantes, mesmo nos mais modestos e informais.

Um ótimo exemplo é a fior di zucca ( flor de abóbora / abobrinha ). É, literalmente, a flor da abobrinha empanada com ovo e farinha, que eles fritam com um pouco de aliche. É um espetáculo e eu não sei porque nós não comemos as flores das nossas abobrinhas. Hehe!! Tem praticamente em todos os restaurantes e é uma entrada ( antipasto ). Super recomendo!!

     

7 – Você não encontrará sal na mesa ( agora isso também está proibido no Brasil, mas aqui é por outro motivo ).

Pimenta é aceitável e se vê, mas o sal seria um convite para mudar completamente o sabor de um prato, e os italianos não curtem mudança nas receitas deles. A comida italiana deve ser simples e temperada apropriadamente, ou seja, italianamente. Hehe!! Sim, eles são bastante conservadores.

8 – A culinária muda radicalmente de região para região.

Se você estiver no litoral, os pratos serão principalmente baseados em peixes ( tive essa maravilhosa experiência em Tropea ), enquanto no interior você vai comer tudo o que estiver por perto, de cordeiro a javali, dependendo de onde você estiver ( comi cavalo em Lecce ). A melhor coisa de viajar pela Itália é que quando você vai de uma cidade para a outra, pode desfrutar de maravilhas completamente diferentes. Aproveite essa oportunidade, dê preferência aos pratos típicos.

9 – Manteiga e alho são usados ​​com moderação.

Com muuuuuita moderação!!!!

Praticamente todos os nossos pratos são temperados com cebola e alho…mas não faça isso se você for cozinhar para um italiamo. Aqui é: ou cebola, ou alho ( e a cebola é bem mais usada ). Eles meio que têm determinado o que combina com alho e o que combina com cebola ( confesso que eu ainda não aprendi essa regra ). E em geral, o alho se usa inteiro, e não triturado, para o gosto não ser muito forte. Eles acham que, muitas vezes, esses ingredientes são totalmente desnecessários e podem cobrir os sabores que devem prevalecer.

10 – Comida italiana é considerada muito saudável.

Além da famosa dieta mediterrânea, que é a dieta mais saudável do mundo, na Itália você vai encontrar a culinária original do produtor ao consumidor; é tudo leve, fresco, sazonal, simples e não muito temperado. Eles tem um programa chamado “Kilômetro zero” que é um tipo de comércio no qual os produtos são comercializados e vendidos na mesma área de produção, e é muito interessante, pois assim o tempo entre a colheita e a chegada à mesa é bem menor, e se gasta menos com transporte, com conservante, se polui menos, e se garante um melhor preço.

 

2 Replies to “Que língua fala a comida italiana no Brasil?”

  1. Adorei a original e esclarecedora orientação gastronômica itakiana.

  2. Uma original e esclarecedora orientação sobre a culinária italiana. Fantástica!!

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